Agir Contra a Gripe


admin - Publicado a 30 Junho 2009

O Centro de Análise da Resposta Social à Gripe Pandémica, foi instituído pela Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, em colaboração com a Direcção-Geral de Saúde do Ministério da Saúde e com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.

Tem como principais objectivos:

  • Estudar a resposta social ao processo pandémico associado ao novo vírus da Gripe (H1N1), actualmente em curso;
  • Relatar periodicamente, no decurso do processo pandémico, os resultados da resposta social ao Ministério da Saúde e através deste ao conjunto da sociedade;
  • Procurar através deste ciclo análise/comunicação influenciar a qualidade da resposta social à pandemia de gripe.

Saiba mais em http://agircontraagripe.blogspot.com

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AnexoTamanho
ProjGripeA_RelatorioPublico01.pdf345.74 KB
ProjGripeA_ComunicacaoPublica02.pdf769.53 KB
ProjGripeA_ComunicacaoPublica03.pdf608.98 KB

Impacto das acções conduzidas no período de contenção

As intervenções conduzidas no âmbito do período de “contenção” – melhor designado como período de retardamento (delaying period), uma vez que quando o novo vírus recombinante H1N1 foi isolado já não era possível a contenção do surto (a disseminação geográfica já correspondia a, pelo menos, dois países) – consistiram na centralização de casos  suspeitos e sua confirmação laboratorial (PCR-RT), a sua validação pela DGS e a implementação, pelas autoridades locais de saúde, de medidas de controlo.Inicialmente, e de acordo com as orientações técnicas da DGS, todos os casos suspeitos (presença simultânea de critérios clínicos e epidemiológicos) eram validados por médicos daquele serviço central de saúde pública.
As medidas empreendidas pelas autoridades de saúde incluíam a localização de contactos próximos (contact tracing) dos casos confirmados, tendo em vista “quebrar” precocemente cadeias de transmissão mediante a instituição de quimioprofilaxia antiviral e de medidas de protecção pessoal e de evicção social. O outcome desejado do período de contenção consistiu em promover a dispersão dos casos no tempo (achatamento da curva epidémica) e, desta forma, “ganhar tempo”, permitindo ao sector da saúde e à sociedade em geral uma melhor preparação para um contexto de pandemia instalada.
De facto, e independentemente da gravidade dos casos em fase pandémica (diagnóstico clínico), o aumento esperado da sua incidência (estimada em 5-10 vezes a incidência da gripe sazonal) implicava um número elevado de casos requerendo internamento hospitalar e, mesmo, cuidados intensivos – independentemente da baixa proporção de casos graves esperados.
Este período, que durou de 27 de Abril a 21 de Agosto de 2009, veio confirmar a relevância de uma rede de autoridades de saúde/médicos de saúde pública, em regime de disponibilidade permanente e sediadas a um nível local, na gestão de ameaças e emergências em Saúde Pública e a excelência da sua actuação (quer em termos “técnicos” quer em termos de gestão do enorme volume de trabalho decorrente da estratégia de contenção).
Consideramos que esta tarefa - em conjunto com a capacitação em saúde das populações (disseminação de medidas individuais de prevenção e controlo), a vacinação pandémica e os serviços dedicados da gripe - resultou na minimização do impacte da pandemia de gripe na periodo de mitigação. No caso concreto dos SAG, a sua constituição minimizou o impacte da pandemia de gripe no que diz respeito à prestação dos restantes cuidados de saúde pela rede de cuidados primários de gripe (maximização da rede de serviços de saúde) e contribuiu para o controlo da infecção em ambiente prestador de cuidados primários do SNS.

Papel das linhas telefónicas para aconselhamento dos cidadãos?

As linhas telefónicas para aconselhamento dos cidadãos resumiram-se, no que diz respeito ao SNS, à SAÚDE 24 (S24) no seu módulo de Saúde Pública (“Linha de Saúde Pública”). A Linha Verde dos médicos era destinada, de acordo com o planeado, exclusivamente aos clínicos e visava “aliviar” a S24, ao funcionar como “via verde” para o diagnóstico da gripe pandémica; no entanto, revelou-se ineficaz, não só pela divulgação inapropriada deste número de telefone, como pela incapacidade em assegurar este serviço.
Não obstante a “taxa” máxima de resposta da S24 não ter ultrapassado os 80% (i.e., mesmo na sua capacidade máxima de resposta, a linha deixou sem atendimento 20% dos cidadãos que a contactaram), cremos que esta linha teve um papel importante de aconselhamento clínico e assistencial dos utentes e, de alguma forma, terá diminuído a procura dos serviços de saúde quando não necessária.
No entanto, há que assegurar em situações futuras o reforço temporalmente oportuno destas linhas, por forma a evitar rupturas na capacidade de resposta e a insatisfação decorrente por parte dos utentes.

Pedro José Vicente Leite Filipe Morais
José Luís Oliveira Pereira Ruivo
Joaquim Augusto Santos Serrasqueiro
António Manuel Pinto Brochado Moreira de Morais (DSPP)
Eugénio Ferreira Neves Cordeiro (DSPP)
Lúcio Teixeira Dias de Meneses de Almeida (DSPP)

Coimbra, 19 de Novembro de 2010

Lúcio Meneses de Almeida (DSPP/ARSC)

Grupo 1 – António Paula Campos; Felicidade Ortega; Manuel José Galego; Margarida Saudade Silva

Pandemia da Gripe – Pensar Saúde Pública

A– Centros de atendimentos especializados? Ou atendimento nos locais habituais com “procedimentos diferenciados”? Que lições?

  •  Atendimento nos locais habituais com “procedimentos diferenciados”. Porquê?
  1.  Racionalização de recursos humanos;
  2.  Racionalização de recursos logísticos;
  3.  Racionalização dos recursos económicos;
  4.  Proximidade do local de atendimento;
  5.  Empatia/relação/confiança individual/profissional com a sua equipa de saúde;
  6.  Uma maior acessibilidade e uma referenciação mais rápida (e efectiva!) aos cuidados diferenciados mais rápida, quando a situação de saúde do utente assim o requeira;
  7. Estigma (vergonha/marginalização!) de ser referenciado a um “centro ;
  8. Um maior risco de contágio, de um maior número de utentes, pela distância que se percorre para se, ser atendido em centros de atendimentos especializados (na maioria das situações são em muito menor número que o atendimento no seu local habitual [Médico de Família]);
  9. Com base na história/evolução natural da situação de falta de saúde (gripe), a morbilidade e mortalidade da doença difere de áreas geográficas para áreas geográficas o que, faz com que as necessidades de cuidados de saúde sejam diferentes quer em recursos humanos, logísticos e económicos;
  10. Falta de sensibilização (por vezes desconhecimento mesmo!) dos utentes para aos centros de atendimentos especializados.

 B – Teria sido possível actuar de outra forma em relação à vacinação contra a gripe pandémica?

  • Sim. Porquê?
  1. Melhorar o circuito de distribuição das vacinas;
  2. Disponibilização das vacinas em tempo útil, de modo a se evitar as pandemias. 
  3. Realizar campanhas de promoção de vacinação na população alvo;
  4. Sensibilização para o problema da gripe dos “médias” do ponto de vista técnico-científico e não sensacionalista/alarmista;
  5. Monitorização de todas as notícias referentes à gripe nos “médias” de modo a se poder esclarecer/formar/incentivar a população alvo;
  6. Promover a formação dos profissionais de saúde no que respeita a todas as vertentes (vacinação, evolução da doença, riscos profissionais,…) da doença (gripe).
  7. Esclarecer, do ponto de vista médico, todas as informações que circularem ( quer à própria doença quer à vacina) na população de forma errada.

 

 

“Some people hate the very name of statistic but I find them full of beauty and interest. Whenever they are not brutalize, but delicately handled by the higher methods, and are warily interpreted, their power of dealing with complicated phenomena i

A presente pandemia de gripe evidenciou até que ponto os profissionais de saúde podem contribuir (negativamente) para a consolidação e até amplificação de boatos e rumores e, consequentemente, para uma percepção inapropriada do risco.
Numa primeira fase de ausência ou indisponibilidade da vacina monovalente verificou-se algum alarme social, a que os profissionais de saúde nem sempre souberam responder apropriadamente; numa segunda fase (benignidade da infecção gripal e disponibilização da vacina pandémica) verificou-se o oposto, com aquilo a que se chama "inversão da percepção do risco" - ao invés de ser valorizado o risco de infecção era (sobre)valorizado o risco de efeitos não desejados da vacina - sem que os profissionais de saúde fossem efectivos no controlo da contra-informação prevalente.
A "vidência" sobrepôs-se à "evidência" e muitos profissionais de saúde elegeram, como fonte primária de informação, as fontes informais e os rumores, compactuando assim, de forma involuntária, com estratégias de autêntico terrorismo psicológico.
Há que parar e reflectir seriamente sobre aquele que deverá ser, em futuras epidemias ou ameaças globais, o objecto primário da intervenção capacitadora dos serviços de saúde, em geral, e dos serviços operativos de saúde pública, em particular: se o público em geral se os profissionais de saúde...

Lúcio Meneses de Almeida (DSPP/ARSC)